Sobre adormecer sonhos

20 mar

Tem uma fase da vida que a gente acha que toda reação precisa ser instantânea. Qualquer coisa que envolva “pensar antes de fazer” parece uma absoluta perda de tempo. O amor não pode esperar, a curiosidade não pode esperar, a vontade não pode esperar, os sonhos não podem esperar. Acho que o nome ideal para essa fase é  “adolescência”. E ela não tem uma duração cronológica correta. Para algumas pessoas dura a vida toda. Você pode ter trinta anos e nunca conseguir realmente ser um adulto. Ou pode se tornar um adulto antes mesmo de ser adolescente. Meu pai costumava dizer que pessoas que sofrem muito na vida crescem antes das outras. Ele dizia isso quando eu estava sendo imatura por algum motivo. Aliás, é aqui que eu queria chegar: maturidade não tem tanto a ver com adolescência.

Esses dia, enquanto lia um livro, que na verdade eu considero um manual de instruções para sobreviver a adolescência, (As vantagens de ser invisível) eu percebi que existe um grande muro que divide o que a gente é quando adolescente e o que a gente se torna quando é adulto. E tudo gira em torno de sonhos.

Minha vida sempre foi dividida em sonhos úteis e sonhos inúteis. Chamo de sonhos inúteis os que podem ser realizados em qualquer fase da vida, até eu fazer noventa anos, caso chegue lá. E os sonhos úteis são aqueles que mudam nossa vida para sempre e tem prazo de validade. Um sonho inútil por exemplo é abraçar um elefante. Ou então, conhecer um popstar. 

Durante toda minha adolescência eu tive certeza que queria ser atriz. E fui contra todas as pessoas que diziam que isso era impossível. E afastei todos os amigos que não me apoiavam com isso. E exclui quase permanentemente a possibilidade de relacionamentos antes de realizar meu objetivo. Isso é um sonho útil. E fui atrás, e trabalhei, e juntei dinheiro, e fiz cursos, e me aventurei, e deixei meus pais malucos. E continuei fazendo isso, com a certeza de que nunca ia desistir. Fui ignorando as dificuldades e tudo que dava errado. Fui ignorando as pessoas e suas opiniões sem importância. Ignorei tudo até que não consegui ignorar a mim mesma.

O que divide um adulto de um não adulto, é a capacidade de adormecer sonhos. Você começa a pesar as possibilidades e se importar com coisas que antes não se importava, como por exemplo trabalhar para um dia poder se aposentar.

Você percebe que seus pais não merecem te sustentar a vida toda, e que talvez o seu caminho esteja mesmo errado. Talvez as pessoas chamem de “sonho” porque uma hora você precisa acordar e viver a realidade.

E perceber isso, não é dar a si mesmo um atestado de infelicidade. É convencer a si mesmo que existem outras formas de ser feliz.

É mais doloroso no começo, abstrair-se de suas próprias convicções. Aquelas que você com um discurso inflamado, vomitou na cara de todo mundo que tentou te parar. Mas com o tempo você vai adormecendo o sonho, como se fosse um bebê agitado numa madrugada de terça-feira. E quando ele finalmente dorme você relaxa.

E pode continuar vivendo e descobrindo significados em outras coisas, onde normalmente você não conseguia ver. E abre espaço para novos sonhos úteis ou inúteis. E para novas pessoas. E para um novo você.

 

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